abril 04, 2018

fui (fomos) reclassificado(s)... (?)

Com a devida vénia e relevo aos textos que me antecedem, de uma seriedade digna das maiores atenção e reflexão, venho amenizar, em breve entreacto, o ambiente...

Presumo tratar-se de anedota... ou, talvez, não. Mas atendendo à sua laracha, aqui fica. Na verdade, fui, ao longo da vida, recebendo reclassificações profissionais, nomeadamente, que quase nunca fizeram grande sentido. Porque não mais esta?

OMS reclassifica conceito de jovem / idoso

 Anteriormente, uma instituição Inglesa (Friendly Society Act) definiu, em 1875, que idosos eram indivíduos a partir de 50 anos... A Organização Mundial de Saúde (OMS), terá feito uma nova avaliação do conceito de «ser jovem, ter meia idade e ser velho»...

01) menor de idade: 0 a 17 anos (alguns de 17, na verdade, parecem... - felizmente, nem todos);

02) jovens: 18 a 65 anos (este «alargamento» deixa-me cheio de um contentamento pueril ainda que inconsequente);

03) meia idade: 66 a 79 anos (exactamente onde se encontra a virtude: no meio! Lamentavelmente, nesse mesmo «meio» muitas outras coisas se vão perdendo...);

04) idosos: 80 a 99 anos (coitados...!);

05) idosos de longa vida: maiores de 100 anos (poderia sugerir-se a designação de idosos p.c. ou, até, gestores do tempo séniores, sei lá...).
  • Os itálicos são de minha responsabilidade.
Pronto, voltemos, agora, às coisas sérias.

março 20, 2018

Beja (Baixo Alentejo) Merece +++

Já há umas cadeiras.

Ali no reino das certezas.

Bastante incomodadas com a tendência “viral” que este movimento está a gerar.

Os traseiros remexem-se.

Há desconforto, há vozes por detrás das portas fechadas.

Gargantas apertadas, olhos que se escondem, mas que para lá das cortinas estão espectantes.

Boas notícias.

Tudo boas notícias.

Alías, o poeta imortalizou que o importante é o desassossego de estar vivo.

Só as estátuas é que conseguem imortalizar um instante para a eternidade.

Tudo Passado, sem futuro: morto!

O Beja merece + já deixou de causar risinhos cínicos.

O Beja merece + saltou por cima dos ombros dos homens de bota alta.

Saltou por cima dos gravatistas, dos perfumistas, dos bem falantes, dos malabaristas.

Beja merece + está muito acima.

Isso incomoda, escapa ao controlo, escapa ao formato, está “out of the box”.

O imenso Sul do Alentejo não se reduz a um subúrbio.

Não precisa de migalhas nem de esmolas de Lisboa.

Tem direitos por mérito próprio, e não se vende.

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Publicado por Charlie

http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=bejamerecemais

março 03, 2018

CP, o paradigma da implosão, ou a falta de Visão Estratégica e Integrada dos Políticos.

mapa das ligações ferroviárias em 1985
...este é dos que se pudesse encolhia-se todo para meter-se dentro do coco...

Existe uma forma de apanhar um inteligente macaco sem lhe desferir qualquer golpe, ou de usar sequer uma rede, ou zarabatana anestesiante.
Basta tão só privá-lo da mais simples noção de prioridades posto diante do império da gula.
Num coco vazio abre-se um pequeno furo por onde se prende o coco a uma árvore através de um forte arame. Na face oposta faz-se outro furo, desta feita um pouco maior de forma a caber lá uma mão se os dedos estiverem todos esticados. Por fim põe-se uma guloseima  no interior do coco e espera-se que o macaco descubra o tesouro.
O que se segue é dramático e hilariante ao mesmo tempo. O macaco, desejoso , mete a mão no orifício, apanha a guloseima. Só que agora, a mão fechada não passa pelo buraco. Ele esperneia, desespera, grita, puxa... mas nem por um instante  tem a lembrança simples que apenas consistiria em abrir a mão e sair daquele filme onde fatalmente, depois de exausto, é capturado.

A saga da aventura ferroviária em Portugal passa por algo que a história do macaco preso pela gula metaforiza na perfeição.
Se atendermos aos mapas de caminhos de ferro num intervalo de tempo de cinquenta anos poderemos ver como a par do incremento das rodovias, as ligações por comboio foram sucessivamente desaparecendo.
mapa actual ferroviário
Longe de uma política de complementaridade dos diversos meios de transporte, as forças dominantes, presas por uma espécie de deslumbramento de novo-rico, tudo apostaram nas rodovias, descurando as necessidades das populações, o valor económico global dos meios ferroviários face ao meio de transporte rodoviários.
Porque sim, dão prejuízo, mas muito menos do que a factura da importação de combustível para o carros.
Está-se agora no ponto da mão agarrada ao doce: o desenvolvimento económico exige desde há anos um investimento contínuo  na forma mas barata de transporte.
A falta deste obriga ao abuso da rodovia, muito menos económico, obrigando a grandes importações de combustível. Sem querer largar mão da rodovia, onde nos estradas mais interiores também já deixou de investir, é preciso agora e de forma imperiosa investir muito mais na ferrovia. O resultado é a concentração de alguns investimentos e o descurar ainda mais das urgentes intervenções, algumas aguardando já décadas.
O macaco cansado não larga a presa que o prende.
Pior é que este é dos que se pudesse encolhia-se todo para meter-se dentro do coco.
Encolhia-se todo, implodia. E temos assim um país à boleia da implosão, cada vez mais litoral e concentrado, receita para o desastre.
O que alguém quis fazer em tempos foi considerado um "despesismo". E continuamos assim, presos aos macacos...

Publicado por Charlie

janeiro 28, 2018

«Os meninos de hoje» - Maria De Lourdes Guerra

Os meninos não podem sair da nossa beira porque os meninos não podem estar sozinhos.
Os meninos não podem ficar no recreio a brincar quando os professores faltam - são levados para a biblioteca ou para alguma aula de pseudo-apoio. Se os meninos ficassem no recreio a jogar à bola e se por acaso se magoassem, o que seria dessa escola! Os pais poderiam até processar a instituição de ensino!
Os meninos não podem ir a pé ou de autocarro para a escola porque isso pode ser perigoso.
Os meninos não se podem sujar ou magoar - os pais nunca se perdoariam (e fá-los-ia perder tempo que não têm).
Os meninos andam a saltar dos pais para os avós e para a escola e para o atl e para a piscina e para o inglês e para a música e para o karaté e para o futebol e para a patinagem e... Porque os meninos têm de estar sempre ocupados e nunca sozinhos; não saberiam o que fazer com o tempo livre.
E os pais têm de ganhar dinheiro para os meninos andarem sempre bonitos e com roupa de marca - caso contrário, os colegas poderiam até gozá-los. E se o colega tem uma coisa, o menino também tem de ter (senão faz birra e com toda a razão).
E os meninos têm de ter festas de aniversário espetaculares - e não pode ser em casa só com a família, que isso não se usa. Tem de ser com a turma toda e os amigos e os primos e tem de se alugar (e pagar) um sítio onde tenha muitos brinquedos e escorregas e palhaços e malabaristas e baby-sitters. Algum sítio onde alguém se responsabilize pelos filhos dos outros, de preferência.
Os meninos, coitadinhos, são muito novos para pensar - mais vale nós planearmos a vida deles e dizer-lhes o que fazer. Mas só se eles concordarem, claro. Porque os meninos não têm culpa de nada; se se portam mal, a culpa é da educação que recebem na escola (que é o sítio onde eles devem ser educados).
Os meninos não comem sopa e verduras porque não gostam.
Os meninos saem da mesa quando lhes apetece e passam o (pouco) tempo livre entre smartphones, tablets e computadores. Mesmo enquanto comem, coitadinhos, tem de haver alguma coisa para os entreter - e não se fala com a boca cheia. Alguns até comem com auscultadores colocados nos ouvidos - e ainda bem, para não incomodar a conversa dos adultos.
Os meninos só vêem desenhos animados (e a televisão é deles quando eles estão em casa).
Porque os meninos querem, os meninos têm. O que não vale é chorar - não gostamos de os ver tristes. Chora chora que a mamã dá mais brinquedos para brincares duas vezes e arrumar a um canto - a casa fica cheia deles; depois compram-se outros diferentes porque os meninos têm de ter sempre mais e mais coisas e mais experiências novas.
Os meninos não ajudam em casa porque são meninos.
Os meninos começam a sair cedo e os papás vão buscá-los onde e à hora que for necessário.
Não há meninos burros, arruaceiros, nem medricas, nem preguiçosos, nem tímidos, nem distraídos, nem mal educados, nem maus, nem... Nada disso. Os meninos são todos bons (os melhores) e muito inteligentes. Todos.
E todos os anos há meninos finalistas e festas de finalistas e viagens de finalistas e até praxes, do primeiro ao último ano da escola, porque eles são muito inteligentes e importantes, agora que acabaram mais um ano. Que bem, já tens a quarta classe - que orgulho, meu filho. Ah, parece que foi ontem a tua festa de finalistas do terceiro ano...
Os meninos não se podem (nem sabem) defender sozinhos; para isso é que existem os pais e os psicólogos e os professores e até os tribunais.
Os meninos têm explicações desde a escola primária porque precisam de toda a ajuda possível para ser os melhores.
Se não estão atentos nas aulas, a culpa é do professor.
Os meninos não levam palmadas - ai se isso acontecer. Podiam ficar traumatizados, coitadinhos.
Se os meninos estragam, os papás pagam.
Os meninos têm direitos - mais concretamente, têm o direito a fazer o que lhes apetece porque são meninos e não têm de entender as preocupações dos crescidos. Por isso desarrumam a casa e todos os sítios por onde passam; partiu? virou? desapareceu? morreu? Não sei, eu sou apenas um menino.
Até que um belo dia, os meninos se veem subitamente fora de casa e da escola e longe de todas as pessoas e coisas que costumam controlar todos os seus movimentos (e até pensamentos). Longe daqueles que lhes disseram sempre que os meninos não são responsáveis nem culpados daquilo que fazem.
E só aí, longe pela primeira vez, começam a aprender a ser pessoas, a respeitar a liberdade e o espaço dos outros (os outros que afinal também existem! - descobrem os meninos nesta altura). Só aí entendem que cada ato tem uma consequência. E torna-se difícil - que a pegada dos meninos agora é grande e os erros notam-se como patas de elefante em cima de nenúfares. Destroem tudo porque têm de aprender e agora é muito mais complicado. Pensavam que podiam fazer tudo o que lhes apetecesse, mas afinal parece que não. Ninguém lhes tinha dito. E de repente aparecem ratos que assustam os elefantes. Todo aquele tamanho mas no fundo continuam apenas meninos que agora vivem em corpos de adultos. Ficam muito assustados (pudera) e não entendem.
Voltam para casa e perguntam aos pais: o mundo é mesmo assim, papás? Não posso atirar colchões pela janela dos hotéis? Não posso ligar extintores e estragar as paredes e camas? Porque não avisaram antes?
E nessa altura, levam um estalo - a primeira palmada das suas vidas. Deixaram finalmente de ser (e da pior forma ) meninos.
Maria De Lourdes Guerra

Nota da redacção: E depois as empresas que se lixem...

janeiro 17, 2018

Alentejo, o Inferno Verde.....

QUINTA-FEIRA, 11 DE JANEIRO DE 2018

O fim da planície e a morte do azeite: um dos maiores crimes ambientais de Portugal

Há muito que não visitava a cidade que me educou e viu nascer: Beja. Recordo-a na imensidão da planície, entre a mutação persistente de um colorido que fazia desta região uma das belas do mundo. Recordo: o verde trigais; o amarelo dos pimpilhos; o branco da magarça; o roxo da sevagem; os cinzas que antecedem a chuva; o vermelho das papoilas… recordo os coelhos, as lebres, as perdizes, os bibes… Recordo o sentido da rotatividade que, contrastando, dava vida ao azul de um céu sempre puro. Um olhar sempre novo. Técnicas ancestrais de exploração da terra, não deixaram perder uma matriz ecológica que protegeu  a planície e permitiu, ao longo dos séculos, alimentar a nação e manteve este lugar insólito como um dos mais belos do Mundo. Lá, onde a vista não alcança, descansava o olhar num horizonte tão longo,  belo e definido.

Fui a Beja e fiquei chocada: petrifiquei o olhar na inexistência da planície. Um extenso olival, onde as árvores eram tantas que não cabiam no terreno ocupado, era apenas intervalado pela vinha plastificada e por intervenções que removeram a camada superficial, de forma profunda, do solo, na sua totalidade.
 São visíveis, ainda, alterações a nível da orologia.  Estes terrenos, no espaço de cinco dias,  juntaram-se a outros tantos e deram origem a milhares de hectares de olival. 

Não há vida na planície; não há vida nem rochas: removidas repousam num cemitério criado para o efeito. Percorri uma área de 33 km (e sei que a área é muito superior); de  toda a imensidão que ladeia a estrada: existe apenas um superintensivo olival. São milhares e milhares de hectares. Do horizonte já nem há memória; o plantio impede que se vislumbre o que me pareceu: o maior crime ambiental em  Portugal.
                                                                                                                                                     Cemitério de rochas
Fiquei incrédula com o infindável que a minha vista não alcança e decidi pesquisar: o que se passa na planície de Beja que parece incógnito ao país?


De imediato, percebo a pequenez do que visualizei. A catástrofe é muito mais grave- a ser verdade as parcas notícias de alguns dos principais meios de comunicação portugueses.

De acordo com o que li, a devastação não se limita à totalidade da flora e da fauna; engloba a totalidade do património arqueológico e paisagístico. Centenas (se não mais) de sítios arqueológicos foram profanados e destruídos: uma Necrópole da Idade do Ferro; uma ponte, um aqueduto e uma villa da época romana; um dos mais importantes “recintos de fossos” da pré-história portuguesa e muitos outros, inscritos no Plano Diretor Municipal (PDM) de Beja como área de sensibilidade arqueológica (um dos casos que relato refere-se a uma zona com mais de 18 hectares de importantes vestígios pré-históricos). A intensa mobilização dos solos, deixou visíveis materiais que comprovam a total destruição de (de acordo com o que li) centenas de sítios arqueológicos (no bloco de rega Baleizão-Quintos, as equipas do Impacte Ambiental registaram 193 ocorrências de âmbito arqueológico).



Avancemos,  a minha indignação é muito grande.
Percebi que em Beja não se sai da cidade e as janelas devem estar fechadas. Ninguém viu ou tomou conhecimento do grave atentado ao património que circunda a cidade? É um caminhante que ao deparar-se com a destruição do “povoado da Salvada 10” decide contatar um arqueólogo (a planície, ainda, não viram que já lá não está); e este informou a Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA). Verificada e constada a sua total profanação:
 “Os proprietários foram identificados e notificados pela DRCA para suspender a intervenção para que fosse avaliada “a extensão dos danos e ponderadas as medidas corretivas” com a indicação de que a “inobservância de providências limitativas decretadas constitui crime” .
Mas não suspenderam e continuam; e continuam numa intensa e total movimentação  dos solos.


É incrível. No Alentejo, conseguem-se esconder milhares e milhares de hectares de um olival superintensivo e as pessoas não vêem o que destroem: “os autarcas de Beja não receberam qualquer pedido para a plantação do olival nem para a instalação do sistema de rega”; os proprietários das máquinas são surpreendidos pelo Jornal  “Público” quando este questiona sobre as profanações; apesar de alegadamente terem destruído património, não sabiam da sua existência e garantem ter cumprido a lei: “implicou rasgos na terra que “não ultrapassaram os 30/40 centímetros”- argumento contrariado pelas dimensões dos socalcos que vi e das rochas retiradas e depositadas no cemitério. A intervenção foi muito além do referido, por toda a planície.
As profanações do património histórico e paisagístico são atribuídas às culturas superintensivas de amendoeiras e olival. No entanto, pelo que observei, a vinha também me parece responsável pela danificação do património paisagístico.

Não se cansem que a história ainda é longa- infelizmente.
Após este primeiro contato com a inércia do país, decidi saber a quem pertenciam as terras e quem as explorava.
Encontrei esta referência relativamente às culturas de amendoeiras: “Prado Portugal S. A. terá arrasado “quase duas dezenas de sítios arqueológicos” para plantar amendoeiras, segundo relata o jornal”
Entre o olival, brilhava um edifício e o nome “Oliveira da Serra”: o edifício é apresentado como o maior lagar do mundo (fica bem a um país tão pequeno); “Oliveira da Serra” é o azeite que sirvo na minha mesa (doeu-me e, não havendo explicação que contrarie tudo o que fui lendo, observando e deduzindo, ficarei envergonhada).
Aqui e ali fui retirando informações. Pouco percetíveis, para mim. Compra-se, vende-se e formam-se grupos; não sabemos quando nem onde e quem fez. Pelo que percebi: a Sovena é proprietária da “Oliveira da Serra” e veicula na sua página : “ é em 2007, em parceria com a Atitlan, que se cria o projeto Elaia, cujo objetivo é a plantação de cerca de 10 mil hectares de olival”. Este projeto adquiriu olivais à SOS Corporación Alimentaria- empresa de capitais espanhóis.
O projeto Elaia destinava-se a "criar um dos maiores e melhores" olivais intensivos (200 a 300 árvores por hectare e sistema de rega gota a gota) e transformou-se em culturas superintensivas (de 1800 a 2000 árvores por hectare).  Pelas minhas contas: muitos hectares têm mais do que  2000 árvores.
Não sei quem foi; mas sei que a profanação é intensa. Mesmo com o sistema gota a gota o Alqueva depressa se esgotará. Não podemos esquecer que o mar Aral (o maior do mundo) desapareceu em menos de quarenta anos devido ao cultivo do algodão; dele, não restou vida: são os químicos os reis do solo, numa área de milhares de quilómetros. É muito cedo para se saber o verdadeiro impacto da situação, na saúde dos que lá habitaram: uma vez que as mutações genéticas ocorrem essencialmente na quarta geração. Será este o destino do Alentejo? Não. Pelas dimensões da barragem do Alqueva, o Alentejo não terá dez ou vinte anos de vida.

É tão grave a situação que decidi consultar a lei. Faz-me confusão que ninguém reaja ou limite a atuação destes grupos (ou de quem, de facto, está atrás do fim de uma região tão linda). Não consigo perceber os benefícios que a região obtém da destruição do seu património e da contaminação de solos e lençóis de água. Emprego? Li tanto sobre a existência de trabalhadores, oriundos de países estrangeiros, que vivem em regime de escravatura. E quem quer um emprego que signifique o nosso fim, dos nossos filhos, netos… Estará o meu país a destruir-se e a permitir a existência de escravatura para enriquecer grandes grupos? Será que Portugal não vê o impacte ambiental das atividades desenvolvidas? Temos ministro da agricultura? Não percebo nada de política.

Consultei o site do Ministério da Agricultura e partilho o lá veiculado:
“Os compassos a usar dependem da variedade, do solo, da possibilidade da cultura ser ou não regada e do destino a dar à azeitona - azeite ou conserva.
Para azeite devem ser plantadas entre 200 e 300 árvores/ha, devendo as linhas distarem 7 m entre si, para facilitar a colheita mecânica.
Para conserva podemos plantar mais de 300 árvores/ha”
Ops! Senhor Ministro? Não vi sete metros. Sabia que as plantações destinadas ao fabrico do azeite, no Alentejo, são de 2000 ou mais árvores por hectare? Concluo que aquele que era um dos melhores azeites do mundo: passa a óleo de gota do Alqueva com o dobro dos produtos químicos.


E os sobreiros e azinheiras? Há muitos por ali. Consultei o DIÁRIO DA REPÚBLICA — I SÉRIE-A N.o 121 — 25 de Maio de 2001
“) Povoamento de sobreiro, de azinheira ou misto —formação vegetal onde se verifica presença de sobreiros ou azinheiras, associados ou não entre si ou com outras espécies, cuja densidade satisfaz os seguintes valores mínimos:
i) 50 árvores por hectare, no caso de árvores com altura superior a 1 m, que não atingem 30 cm de perímetro à altura do peito;”
Ops! Senhor Ministro da Agricultura? A lei não fala em 2000 árvores.
O Diário da Republica pode estar enganado? Porque não se faz cumprir a lei?
 “Nos povoamentos de sobreiro ou azinheira não são permitidas:
a) Mobilizações de solo profundas que afectem o sistema radicular das árvores ou aquelas que provoquem destruição de regeneração natural;
b) Mobilizações mecânicas em declives superiores a 25%;
c) Mobilizações não efectuadas segundo as curvas de nível, em declives compreendidos entre 10% e 25%;
d) Intervenções que desloquem ou removam a camada superficial do solo.”
A camada superficial do solo nem sequer existe.
Artigo 19.o
Embargo
A Direcção-Geral das Florestas e as direcções regionais de agricultura poderão requerer ao tribunal competente o embargo de quaisquer acções em curso que estejam a ser efectuadas com inobservância das determinações expressas no presente diploma.

Artigo 20.o
Medidas preventivas
A Direcção-Geral das Florestas e as direcções regionais de agricultura podem apreender provisoriamente os bens utilizados nas operações ou intervenções em áreas ocupadas por povoamentos de sobreiro ou azinheira, ou por exemplares isolados destas espécies, efectuadas com desrespeito ao disposto no presente diploma e adoptar as medidas destinadas a fazer cessar a ilicitude.

Artigo 22.o
Sanções acessórias
Sempre que a gravidade da infracção ou da culpa do agente o justifique, o Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas pode aplicar ao infractor as seguintes sanções acessórias:
a) Perda, a favor do Estado, de maquinaria, veículos e quaisquer outros objectos que serviram ou estavam destinados a servir para a prática da contra-ordenação;
b) Perda, a favor do Estado, dos bens produzidos pela prática da infracção, incluindo a cortiça
extraída e a lenha obtida;
c) Privação de acesso a qualquer ajuda pública por um período máximo de dois anos.”
Não se espantem: descobri que a plantação de Olival é subsidiada. Pagamos: o fim da planície; a degradação da qualidade do azeite; a poluição; a destruição da fauna, da flora e do património histórico; a existência de escravatura- e, certamente, não referi tudo. 

É possível desenvolver uma região sem recurso ao crime e à escravatura- ambos ocorrem, na sua forma gravosa, no Alentejo que vos descrevi.. É esse desenvolvimento que todos queremos. A lei portuguesa não pode aplicar-se, apenas, à pessoa singular. Os grandes grupos tem a obrigatoriedade de a cumprir e o nosso país o dever de os sancionar aquando do incumprimento. De contrário, a legislação portuguesa tem que ser alterada;  deve, obrigatoriamente, referir quais são as leis e quantas pessoas deve ter um grupo para não haver obrigatoriedade no seu cumprimento. Ou seja, definir um número de pessoas, a partir do qual: qualquer ação é considerada “não crime”.
Vamos continuar calados  e a discutir a vida do vizinho do lado?
Sem Sorrisos
Guida Brito

Republicado por Charlie

dezembro 22, 2017

«Poderemos corrigir o horário de verão de uma vez por todas?» - Alan Burdick

Minha tradução livre e resumida do texto «Can We Fix Daylight-Saving Time for Good?» de Alan Burdick para a revista «The New Yorker»:

A mudança do relógio causa causa danos a motoristas, juízes e até koalas. Mas uma solução poderá estar à vista.

Um relógio faz duas coisas. Actua como um temporizador, ao marcar quanto tempo passou e ao indicar quanto falta, e isso dá-lhe a sua posição - isto é, onde, ou quando, você está neste momento, no mar de minutos e horas. "O que o relógio faz, principalmente", escreveu Heidegger, é "determinar a fixação específica do agora". No entanto, duas vezes por ano, não o faz, como você agora estará hesitantemente de acordo. Às 2:01 da manhã, no segundo domingo de Março, "agora" torna-se uma hora depois, ao inaugurar o horário de verão e dizer adeus a uma hora de sono. E, às 2:01 da manhã, no primeiro domingo de Novembro, o relógio volta atrás uma hora; num instante, "agora" torna-se "depois" e vivemos sessenta minutos outra vez.
Ambas as transições causam estragos. Os cientistas descobriram que, na segunda-feira após a poupança de Verão, os ataques cardíacos e os acidentes de trânsito são mais numerosos, os juízes aplicam sentenças mais duras e os funcionários têm mais probabilidade de andarem a vaguear improdutivamente pela internet. Depois de o horário de Verão terminar, passando o pôr do sol a ocorrer mais cedo, os crimes de rua são mais comuns, assim como os acidentes de trânsito envolvendo a vida selvagem, porque esse é o horário de pico de migração para veados e alces. Pesquisadores da Austrália calcularam que o aumento da luz do dia, durante todo o ano, reduziria o número de koalas mortos por motoristas em cerca de oito por cento. Nem é claro que o tempo de economia de luz economize energia, como era originalmente suposto; a redução do consumo de electricidade que já não é usada para alimentar as empresas à noite, é compensada por um aumento na utilização de ar condicionado e iluminação em casa.
Agora precisa ser corrigido, agora. O site de activismo Change.org está inundado de petições para fazê-lo nos EUA, seja ao ampliar o horário de verão como os australianos recomendam, simplesmente acabando com isso ou movendo a mudança de hora para o meio da segunda-feira seguinte (isso iria encurtar o dia de trabalho na Primavera, mas alongá-lo em novembro). (...)
"Isto costumava ser um assunto estranho e restrito, mas tornou-se muito mais uma questão de política pública", disse-me recentemente Scott Yates, um activista DST. "Parte disso passa-se porque eu tenho feito pressão nesse sentido".
Yates, que mora no Colorado, no Mountain Time, é um ex-jornalista e fundador de um serviço de escrita de blogs chamado BlogMutt. Ele assumiu esta causa há três primaveras atrás, depois de se queixar muitas vezes para a sua esposa sobre a mudança de hora duas vezes por ano. "Eu decidi que é o tipo de coisa sobre a qual eu posso fazer algo, e se eu podia fazê-lo, eu deveria fazê-lo", disse. Ele começou a pesquisar a questão, conversando com legisladores e publicando um blog. (...) Yates rastreia o status desta e de outra legislação na sua página, que assume o nome incomum «End Changing The Clocks for Daylight Saving Time» (acabem com a mudança dos relógios para o horário de Verão). É o site oficial para aqueles que defendem que os EUA devem deixar de mudar os relógios dentro e fora do horário de Verão. "É um nome terrível", admitiu. "Sinta-se à vontade para simplesmente dizer «esforço quixotesco de Yates» ou qualquer outra coisa que você queira chamar".
Em geral, estados como o Nebraska, que se encontram no limite ocidental do seu fuso horário, estão mais inclinados a buscar a isenção da economia de verão do que a abraçá-la; o sol nasce e instala-se mais tarde do que em qualquer outro lugar do fuso horário, pelo que uma hora extra da noite não adiciona muito. Yates é agnóstico nessa escolha particular; é da mudança de ida e volta que ele não gosta. "A pesquisa mostra que o problema é a mudança duas vezes por ano", disse ele. E, embora ele apoie o espírito dos esforços dos estados para modificar o horário de Verão, ele não vê nenhum deles fazer a diferença. "Cada uma dessas propostas está condenada", escreveu no seu site. "Todas".
Isto porque o tempo está sob jurisdição federal e não estatal. No século XIX, as cidades estabeleceram os seus relógios de acordo com o tempo solar local, e a paisagem americana era uma colcha temporal e louca; em 1866, só o Illinois tinha mais de duas dúzias de tempos locais distintos. Em 1883, para simplificar os horários dos comboios, as empresas ferroviárias estabeleceram quatro fusos horários em todo o país, que o Congresso codificou, em 1918, de acordo com a Lei do Tempo Padrão. A lei também introduziu a nação para o horário de verão, que os alemães e britânicos implementaram durante a Primeira Guerra Mundial.
Os agricultores americanos odiaram-no e foi retirado pela lei em 1919. (De acordo com "Spring Forward: The Annual Madness of Daylight Saving Time", de Michael Downing, a noção de que os agricultores beneficiaram com a luz do dia era uma ficção promulgada pela Câmara de Comércio de Boston, que defendeu a mudança de tempo, porque a luz da noite adicionada incentivou as compras nocturnas.)
Nas cinco décadas seguintes, a economia de verão foi livre; cidades, municípios e Estados poderiam segui-la em qualquer horário de que gostassem, ou não a seguissem. A revista Time, em 1963, descreveu a situação como "um caos dos relógios". Finalmente, em 1966, o Uniform Time Act introduziu a ordem: a luz do dia começaria para todos no último domingo de Abril e terminaria no último domingo de Outubro . Em 1986, a data de início foi movida para o primeiro domingo de Abril e em 2005, com a instigação dos lobbies de churrasco, golfe e doces, o horário de Verão foi estendido para o seu período actual, que cobre o Halloween.
Individualmente, os Estados estão presos. O Uniform Time Act proíbe-os de iniciar ou interromper o horário de verão em datas diferentes das existentes, o que também os impedirá de adoptá-lo em tempo integral. "Eu vi isso uma e outra vez, Estado após Estado - alguém propõe uma lei para manter a luz do dia, então alguém olha para a lei e descobre que eles não podem", disse Yates. O acto permite que um Estado se isente do tempo de economia de luz inteiramente; Arizona e Hawaii optaram por sair do início. Mas, efectivamente, coloca esses Estados num fuso horário diferente em parte do ano, interrompendo a uniformidade desejada. A sabedoria prevalecente é que nenhum Estado pode agir sozinho; Ou eles se juntam e todos mudam de uma só vez ou ninguém o faz.
É aí que entra Yates. As contas do Estado são um beco sem saída, mas, ele argumenta, um Estado poderia passar por uma resolução sem restrições pedindo à autoridade federal reinante, o Departamento de Transportes dos EUA, para atribuir-lhe um novo fuso horário equivalente ao padrão local do horário de verão ou tempo integral. "As resoluções geralmente não são consideradas como tendo algum poder", disse Yates. "Elas não têm força de lei; são como reconhecer o mérito do professor que se aposentou após cinquenta anos. Mas, de vez em quando, pedimos ao Congresso que decrete X, Y ou Z. O meu pensamento é que é apenas uma conveniência política: é mais fácil aprovar uma resolução do que uma lei. Se eu puder obter, talvez, uma dúzia de Estados para aprovar uma resolução, eu posso ir ao Departamento de Transporte eu mesmo e dizer: «A vontade do povo, representada pelos Estados, é que eles não querem mudar os seus relógios duas vezes por ano». Eles poderiam aliviar as restrições para que todos possam escolher o fuso horário em que querem estar, e então não haveria mais mudanças de tempo (...)".
Yates vendeu a sua ideia a vários funcionários do Estado e, em seu site, publicou uma resolução modelo, com linguagem sugerida para os legisladores que querem "pôr para sempre fim às mortes, à perda de energia e da produtividade, pela mudança dos relógios duas vezes por ano". "Em Setembro passado, a Califórnia aprovou tal resolução, quase por unanimidade. Yates está confiante de que outros Estados o farão nos próximos meses e que, no final de 2018, o centésimo aniversário da Lei do Tempo Padrão, todos iremos para dentro ou para fora do horário de Verão - de qualquer forma, como todos desejamos - e nunca voltaremos atrás. "A questão é que, quando você pensa sobre relógios, o tempo é uma convenção, é um acordo entre as pessoas", disse Yates. "Se conseguirmos que o governo resolva isso, melhorará a nossa fé no governo. Essa é a razão louca e optimista pela qual estou a empurrar isto. "Num momento de divisão política incomum", ele acrescentou, estabelecer o debate da mudança da hora de Verão "capacitará as pessoas a dizer que esta coisa que pensávamos imutável" - o sol, o tempo, o firmamento cósmico - "é realmente corrigível. Podemos consertar isso".
Alan Burdick

novembro 25, 2017

O Golpe de 25 de Novembro. A miserável verdade-



a narrativa oficial diz que estivemos à beira de uma ditadura de esquerda quando, em verdade, estivemos muito mais próximos de um golpe de extrema-direita. A direita não foi tão ordeira e civilizada como hoje nos querem fazer crer... Estamos cansados de ouvir que o 25 de Novembro foi o princípio da “normalidade democrática” quando os atentados mais mortais da “rede bombista” foram depois dessa data e já corria o ano de 1976....


Vivemos em democracia, mas também vivemos numa mentira. A nossa memória histórica foi amputada de muito do que se passou. O jornalista Miguel Carvalho escreve um livro, “Quando Portugal Ardeu”, em que se resgata parte da história de Portugal. Nestas quase 600 páginas ficamos a saber que nos venderam um conto de fadas em que os maus vermelhos e totalitários foram derrotados por um grupo de pacíficos democratas impolutos e respeitadores da liberdade. Por baixo do tapete ficaram escondidos anos de terror e mais de 560 ataques da “rede bombista”, que aterrorizaram os militantes pró-revolução e mataram muita gente. 
Salgueiro Maia, herói de 25 de Abril
Depois de escrever este livro, acha que vai ter problemas?
(Risos) Confesso que tenho pensado bastante nisso, pelo seguinte: uma das pessoas com quem eu tentei falar para este livro foi Ramiro Moreira. Recusou. Eu não fiz o contacto direto com ele, usei uma cunha de uma pessoa muito próxima dele, e ele, quando ouviu falar do meu nome, disse: “Eu não falo com esse filho da puta.” Ele tinha-me processado há uns anos por causa do Apito Dourado, por eu ter referido num texto as suas ligações ao Valentim Loureiro. E processou-me, não por eu ter feito referência a esse negócio, mas por lhe ter chamado bombista. Obviamente, acedi a muita documentação sobre ele, cartas pessoais e elementos dos processos, mas queria falar com ele.
Acedeu à gravação da sua confissão?
Sim, já a conhecia, o “Diário de Lisboa” publicou-a na altura e agora ouvi-a. Tem havido uns zunzuns de pessoas que já leram o livro, dos vários lados da barricada, que me têm telefonado a dizer: “Eh pá, se calhar, na sessão de apresentação é melhor ter cuidado”, mas confesso que não tenho levado muito a sério.
Esses operacionais da altura já devem estar velhinhos e com alguma dificuldade de locomoção, mas há um conjunto de interesses ligados à “rede bombista” que são revelados e postos a nu no seu livro.
ELP, movimento terroista anti -25 de Abril
Há uma série de coisas que nunca tinham sido reveladas. Para este nível de pormenor que o livro revela contribui o facto de muita gente ter falado, passado mais de 40 anos, e a muita documentação consultada. As recusas de gente para falar para o livro mostraram-me que o assunto ainda está quente. Tive três tipos de recusas: a primeira foi do género de contactar o advogado x ou a figura y, pessoa que esteve bastante envolvida a nível processual no julgamento da “rede bombista” e que agora diz que não lhe convém nada, porque é advogado de empresas conhecidas, ser lembrado como advogado das forças de esquerda. Segundo tipo de recusa, mais expectável, é do género: “Eh pá, não me meta nisso porque os meus filhos estudam na universidade z, não sabem o que o pai fez e não quero ser associado a isso.” E a terceira recusa, que vai ao encontro da sua pergunta: “Não me meta nisso porque isto foi no século passado, mas não foi assim há tanto tempo, em termos temporais foi ontem, e ainda há muita gente que sabe fazer as bombas, portanto deixe-me em paz.” 
Uma coisa que se percebe no seu livro é que, para além de Joaquim Ferreira Torres [empresário ligado à rede que foi morto a tiro quando seguia ao volante do seu Porsche vermelho, em 21 de agosto de 1979], se percebe que ao longo dos anos houve bastante gente que desapareceu de forma misteriosa. 
General Spínola, ligado aos movimentos de
Extrema-direita 
Nomeadamente, alguns operacionais da FLAMA [movimento independentista de extrema-direita da Madeira] que apareceram, como eles gostam de dizer, “suicidados”, e o Ferreira Torres, de que fala. Este é um caso que ficou sem conclusão, apesar de, na fase final da investigação, com os cacos deixados por investigações policiais anteriores direcionadas para que nada se soubesse, se terem conseguido algumas pistas. Na parte do livro sobre o ex-coronel Ferreira da Silva [que dirigiu as investigações à “rede bombista”], ele relata uma conversa que teve com um elemento do esquadrão Chipenda [grupo ligado à FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola, que estava em guerra com o MPLA e, em Portugal, associou-se a atos de violência da extrema-direita e da “rede bombista”] que lhe diz, numa boate, que foram eles que mataram o Ferreira Torres por uma questão de dinheiros.
Ele também interpreta como uma ameaça a abordagem, salvo erro no Tamila, de quem diz: “Sabemos quem tu és e sabemos como te encontrar.”
MDLP, movimento terrorista
de Extrema direita anti-25 de Abril
As duas coisas. Ele sabe que é isso, mas também dá crédito à informação. Fica convicto de que lhe estão a contar a verdade, fruto das várias histórias que sabia e investigou. Ele meteu a mão na massa e sabia bem o que tinha um fundo de verdade. Aquilo também foi uma forma de o avisar e de lhe dizer: “Aquilo foi tão perfeito, já sabe o que lhe pode acontecer.” Eu consultei o processo Ferreira Torres e muita papelada ligada à matéria, e nunca vi nesses documentos uma afirmação tão direta sobre o motivo eventual do crime. Insinua-se em muitos lugares sobre os negócios e o dinheiro que teria ido para a “rede bombista” à sombra do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, juntamente com o ELP - Exército de Libertação de Portugal, a principal organização política da rede, dirigida pelo, na altura, general no exílio António de Spínola]. Mas nunca se fala claramente, nessa conversa, sobre as fortunas que ajudou a passar para Espanha e os valores e negociatas à sombra da organização terrorista. Com tudo isso, não é difícil de imaginar que esse elemento do esquadrão Chipenda estivesse a falar verdade quando confessou que Joaquim Ferreira Torres tinha sido morto por causa de “negócios mal resolvidos”. 
Uma das coisas que não são totalmente novidade, porque já era revelada no livro “A Descoberta de Uma Conspiração”, do jornalista Günter Wallraff, é a promiscuidade entre os “democratas” do atual regime e os bombistas: eles eram uma espécie de plano B dos “democratas”. 
Padre Max e Maria de Lurdes.
Assassinados pela extrema-direita
É precisamente este lado sombrio da história que é importante. Embora eu tenha consciência de que não é este livro que o consegue revelar. Eu tenho um ponto de vista e não abdico dele: quero provar, sem nenhum tipo de ajuste de contas, que a narrativa oficial diz que estivemos à beira de uma ditadura de esquerda quando estivemos muito mais próximos de um golpe de extrema-direita. A direita não foi tão ordeira e civilizada como hoje nos querem fazer crer. 
Há muito mais gente assassinada pela “rede bombista” do que pelas FP25.
Estamos cansados de ouvir que o 25 de Novembro foi o princípio da “normalidade democrática” quando os atentados mais mortais da “rede bombista” foram depois dessa data e já corria o ano de 1976. Ninguém dá resposta para isso. A única coisa que nos pode valer é a confissão do Ramiro Moreira, em agosto de 1976, em que ele diz para um gravador: “Interessava que continuasse a haver bombinhas.” Porque havia uma série de frustrados com a independência de Angola e porque os comunistas continuavam a existir. Duas das coisas que essa gente assumiu como os objetivos do seu combate, impedir a independência de Angola e liquidar os comunistas, não tinham acontecido. 
Não era também uma espécie de chantagem das almas negras para os novos donos do poder e seus anteriores cúmplices?
Onde quer chegar?
Assalto e incêndio em Braga ao
Centro de Trabalho do PCP
Há sectores do CDS, PSD e até PS que aparecem, no seu livro, a colaborar e a apoiar a “rede bombista”. Coloca no seu livro um chefe da segurança do PS, preso por causa das chamadas armas de Edmundo Pedro [armas dadas pela direita militar e o Grupo dos Nove ao PS] a dizer na cadeia ao Ramiro Moreira: “Cala-te senão ainda apareces morto.”
Eu não sou ingénuo, mas confesso que o grau de envolvimento de sectores do PS com a “rede bombista” é muito maior que eu imaginava. 
Sectores ou implica a própria direcção?
Há zonas do país em que as directrizes do PS não são seguidas. Se, em Braga, o dirigente da distrital do PS é um dos grandes organizadores da manifestação da Igreja [que acaba com o assalto e incêndio da sede do PCP], há outras pessoas, como um dirigente do PS de Viana do Castelo, que se recusam a cumpri-las. Esse dirigente demite-se porque não quer obedecer a uma ordem do Largo do Rato sobre um envio de armas. 
No seu livro até há um bombista a dizer que colocou um petardo na sede do PS do Largo do Rato, no dia do debate televisivo com o Cunhal, a mando do próprio Partido Socialista, para se vitimar. E quem acaba por indultar o Ramiro Moreira não foi o Eanes. 
Pois não. Foi o Soares. O próprio julgamento da “rede bombista”, a própria forma como o julgamento terminou deve muito às manobras do governo PS da altura. Não me custa nada fazer minhas as palavras do advogado Levy Baptista de que o julgamento da “rede bombista” foi uma farsa. Aquilo ter ido para o fórum militar foi uma forma de condicionar uma data de coisas; o papel de Almeida Santos nesse assunto está por esclarecer; o próprio papel de Mário Soares não é claro. Relembro que, depois dos acontecimentos em Rio Maior [manifestação, a 13 de julho de 1975, que culminou em assaltos às sedes do PCP e FSP], Soares faz um comício em Rio Maior em que diz, “Era bom que este exemplo fosse seguido em várias zonas do país”, e a Igreja aproveita logo as declarações em várias dioceses. Uma coisa espantosa, mesmo conhecendo bem a documentação desse período, são as coleções do “Diário do Minho” [jornal propriedade da Igreja], que quase chegam a ser uma espécie de “Ação Socialista” daquele período: abundam fotos e elogios ao Mário Soares. 
Outra coisa impressionante no seu livro é a dimensão de guerra suja, com operações de provocação que podiam ter custado centenas de vidas, como da vez em que pediram a Ramiro Moreira para colocar 100 quilos de explosivos no Santuário de Fátima para depois acusarem os comunistas do massacre.
Não tenho dúvidas de que é verdade. Acho que quando o Ramiro Moreira é genuíno é quando foi ouvido, poucas horas depois de ser detido, não é quando em 1991 é indultado e reescreve a história, e diz que têm de lhe erguer uma estátua porque ele lutou pela democracia. Ele é verdadeiro quando está assustado e está convencido de que, “abrindo o livro”, pode ser salvo.
É muito curioso o facto de ter sido o próprio Sá Carneiro, de quem Ramiro Moreira tinha sido guarda-costas, a expulsá-lo do PSD, dizendo: “Eu não posso ter um bombista no partido.”
Francisco Sá Carneiro não era um líder político como os de hoje, que são completamente viciados no aparelho.
Soares também não era viciado no aparelho e tinha um historial impressionante...
Havia uma diferença entre os dois na forma como ligavam com a estrumeira dos respetivos aparelhos. Sá Carneiro, quando começa a saber do envolvimento de certas figuras do PSD, nomeadamente Ramiro Moreira, que não era só segurança, era militante número 7 do partido, tinha feito parte da comissão política distrital do Porto, tinha sido levado ao colo por Mota Freitas, essa figura altamente protegida pelos militares... Quando Sá Carneiro chama Ramiro Moreira a casa e lhe diz, “Meu amigo, ou entregas o cartão ou és expulso”, isso é uma tentativa, admito que já desesperada, de que o partido não resvale par aí. Podemos discutir se o conseguiu ou não, até porque o PPD aparece envolvido em muita coisa. Já os militantes do CDS aparecem bastante envolvidos, são eles que fazem grande parte das ligações, em algumas regiões, da Igreja com a “rede bombista”. Basílio Horta chega a reunir com os responsáveis da Igreja, que lhe dizem o que estão a fazer. Claro que ele, depois, diz que não alimentaram isso, mas ele sabia o que estava a ser preparado. Espantoso, para mim, é o grau de envolvimento dos sectores do PS nisso. O que me leva a tirar a conclusão de que - não sou o primeiro a tirá-la - o Partido Socialista se aliou a tudo para combater o PCP.
Os contactos de Günter Wallraff, a fingir de traficante de armas, com Spínola para armar um golpe de Estado de extrema-direita são posteriores ao 25 de Novembro? 
São anteriores. Quando Wallraff vem a Portugal, ainda os Corrécios [bando liderado por Eduardo Oliveira que cometia grande parte das agressões e atentados contra militantes de esquerda na zona de Braga] estavam em liberdade.
Aliás, o primeiro contacto que Günter Wallraff diz ter com alguém da “rede bombista” é uma conversa que tem, por acaso, com um homem com um cão que é o próprio líder dos Corrécios. 
Alguns pormenores do livro do jornalista alemão podem ter sido romanceados mas, no geral, ele é rigoroso. Na altura, o semanário “O Jornal” foi conferir os dados do livro e concluiu que eram verdadeiros. Há vários elementos do ELP e do MDLP que vêm confirmar que o livro acertava em cheio. Quando me perguntam como era possível os bombistas, como os Corrécios, irem gabar-se dos seus atos para os cafés, eu respondo: muito facilmente, grande parte do país era anticomunista e era fácil fazê-lo sem nenhuma consequência. 
Um dado desconhecido pela maior parte das pessoas é a cumplicidade de membros do Conselho da Revolução com a “rede bombista”.
Tanto o Canto e Castro como o Vítor Alves sabiam o que estava a acontecer e quem eram as pessoas que estavam por detrás dessas ações. O Vítor Alves “aterrou” várias vezes em casa do Joaquim Ferreira Torres. Aliás, há um frase do Joaquim Ferreira Torres, quando o vê na televisão, que diz: “Este filho da puta veio tantas vezes jantar a minha casa e comer o meu fumeiro e, afinal, não fez nada do que se comprometeu.” Para além de tudo isso, está também por esclarecer o papel de Ramalho Eanes em tudo isto. 
Mas ele parece ter infletido uma eventual cumplicidade. O grau de ódio que Ramiro Moreira manifesta contra Eanes é um pouco indicador disso. Até no seu livro, o coronel Ferreira da Silva fala elogiosamente do grau de distanciamento que Eanes teve com as investigações quando era Presidente.
Mas o grau de compromisso dele com tudo o que ardia é muito maior do que se pensa. Lê-se em vários documentos e em depoimentos de várias pessoas que há muita gente que suspeita do seu envolvimento. O próprio Álvaro Guimarães, diretor da Polícia Judiciária do Porto, afirma que um dos objetivos do Eanes foi colocar um espião na PJ para controlar os movimentos da Judiciária e saber o que a investigação sabia.
... Lencastre Bernardo.
Sim. 
Não falou com Ramalho Eanes?
Não, e confesso que não tentei. O objetivo do livro era sobretudo ouvir uma data de gente que, apesar de não ser conhecida, tem mais coisas a dar. Quando eu digo que não acho que haja um esclarecimento total do seu envolvimento naquele período, não penso que fosse conversando com ele que isso se conseguiria apurar. Acho que seria mais importante ouvir pessoas que estiveram com as mãos na massa, investigaram e produziram muita documentação.
Mas o seu livro acaba por ficar na mesma situação em que ficaram as investigações judiciais: os executantes da arraia miúda foram apanhados e logo libertados, os mandantes foram falados mas permaneceram intocados, e quem politicamente estava por detrás nunca foi incomodado. 
Essa situação resulta de uma estratégia intencional por parte do poder. Para conseguir que as coisas não se saibam. Quando eu, para fazer este livro, me deparo com a proibição de aceder a alguns arquivos, isso tem o objetivo de conseguir que muita coisa fique escondida. Assiste-se a uma privatização da memória pública. Tudo isso é feito dentro da lei, mas se eu quero consultar o processo de Eduardo Corrécio, que foi condenado a dois anos e meio de prisão por posse de armas - e tudo o que foi dito naquele julgamento é importante para perceber o grau de cumplicidade daquele gangue com aqueles movimentos e os responsáveis políticos -, esse processo é-me negado com o argumento de que ou é autorizado por ele ou, caso ele tenha morrido, a família tem de autorizar. De modo que espero sentado. 
Isso é legal, o processo não tem de ser público?
Eu acho que sim, mas está protegido. Como está protegido o depoimento prestado por Ramiro Moreira a uma das comissões ao acidente/atentado de Camarate. O depoente só aceitou fazer o depoimento quando lhe garantiram que nunca seria tornado público. Se pedir à Assembleia da República, a resposta que lhe vão dar é que o Ramiro tem de autorizar. Aliás, há muitas atas dessa comissão que são impossíveis de conseguir. Isto é tudo formalmente legal. Mas, para mim, isso é uma privatização da memória pública. Legitima que se possa pensar que isto não é por acaso: se calhar, sabendo-se tudo sobre a “rede bombista”, algumas biografias vão ficar desfocadas. 
Já teve algumas reações?
Há muitas. Gente que leu e ficou impressionada com o grau de envolvimento de parte dos políticos nestes acontecimentos, mas ameaças e outras coisas não me têm feito chegar. 
Bastante mais calmo do que seria há alguns anos. Conseguiu falar com os Corrécios?
Mais uma vez, houve a possibilidade de falar com o Eduardo Corrécio, mas eu obtive muita documentação sobre o processo e sobre as investigações, e não insisti porque, mais uma vez, não tinha qualquer garantia da fiabilidade dos depoimentos que conseguisse obter. Confio mais naquilo que foi dito na época do que na reescrita que fizeram depois. O Ramiro Moreira é um bom exemplo disso: eu li todas as entrevistas que ele deu, li muita documentação, cartas pessoais, coisas que nunca vieram a público, elementos do processo, e isso é bastante mais fiável do que a reescrita que ele faz da história e da sua participação nesses acontecimentos que fez nas suas últimas entrevistas.
E o Ramiro Moreira terá lido o livro?
A única coisa é que o Ramiro Moreira ligou a um camarada de profissão que escreveu sobre o livro, dizendo, indignado, como é que essas coisas serão lembradas. Terá dito que não fez só coisas boas, mas porquê só lembrar coisas desse período. Não passou disso. O próprio depoimento do José Silva Santos no livro é um pouco exemplo deste estado de espírito: um homem que, no âmbito daquele processo, desmente tudo aquilo de que o acusam e, 40 anos depois, confirma tudo: “Sim, o carro foi armadilhado aqui, eu até fiz a ponte com a Igreja.” 
Agora, há outros, como o cônsul dos EUA no Porto, que, pelo seu depoimento, ficamos a saber que ele só organizava chás e sessões de relações públicas, e que nunca viu um espião da CIA...
O homem que está no centro do furacão e que garante que a sua vida não passava de jogar golfe. Mas é importante o seu depoimento estar aí. É o relato de alguém que tenta reescrever o sucedido, como quando ele diz que isto tudo não passou de uns tipos a baterem com o guarda-chuva na cabeça uns dos outros.